A rapariga do olhar vidrado
Estava morta, caída no meio de uma poça do seu próprio sangue, com o aberto olhar vidrado e vazio, com a cabeça virada para a porta de um bar situado do outro lado da rua. Um bar animado, decorado com muitas garrafas de whisky, que no entanto pareceu ignorar o violento crime que tinha acontecido mesmo em frente. Estava caída como se nem uma pessoa tivesse sido, sem qualquer história para contar… O corpo sem alma, despido de personalidade, sugado à força.
- Meu Deus, isto é completamente desumano… Que se passou aqui? Que informações têm para me dar? E como é possível já estar tanta gente aqui? – questionou apressadamente uma outra figura masculina, que entretanto chegara, com uma barriga avantajada e proeminente, pasmado com a brutalidade da situação com que se deparava e com a quantidade de pessoas que já rodeavam o lugar. Mal as sirenes da polícia se fizeram ouvir uns bons minutos antes, todas as pessoas do bar saíram à rua, motivadas pela curiosidade que aquele som despertara. - Bem, rapariga de nome e idade desconhecida, foi encontrada morta com uma faca cravada no peito, embora bastante ferida pelo restante corpo, por duas pessoas que passavam pela rua. Estão neste momento a ser interrogadas pelos nossos colegas. Detectámos, porém, que a vítima ingeriu um ácido antes de morrer, talvez X… O que é bastante visível, enfim. Teremos, no entanto, mais pormenores depois da autópsia. Vão levar agora o corpo. – informou detalhadamente um dos investigadores.
- Sim, sem dúvida. A garganta está completamente desfeita. O que se pode concluir então?
- O caso apresenta-se como um possível suicídio, Chefe… A carta junto da vítima, parece-me ser do tipo de despedida, principalmente por referir a própria morte. Contudo, o facto de estar rasgada suscita-me algumas dúvidas, como se alguém quisesse ter na sua posse aquela carta! Enfim, é difícil dizer agora, teremos que investigar mais. Há que considerar também o sítio em que foi encontrada… Parece-me evidente que foi morta neste lugar. Considero muito pouco dramático para um suicídio, não concordam? Mas também seria burrice do assassino matar num sítio público, com a probabilidade de ser visto. - afirmou o investigador de género masculino, com suposta exactidão do seu saber.
- Agradecemos a tua subjectividade, mas é algo que dispensamos. Aliás, não me parece que seja a primeira vez que alguém é morto num beco, Dr. Rodrigues. – respondeu a investigadora, fitando-o de certo modo, ao que ele ripostou com igual intensidade, sem proferir qualquer palavra. Virou-se para o Inspector - Inspector Morgado, um facto de extrema relevância... A única coisa que encontrámos junto da vítima, para além da carta rasgada, foi uma mala, que tinha somente no seu interior uma fotografia. Não havia qualquer elemento de identificação, como referido. É impossível saber se a fotografia é de um familiar ou de alguém mais próximo. Investigaremos a fundo. -
O corpo da rapariga estava abandonado e esquecido num beco escuro, como se de uma carcaça humana se tratasse. Lídia Oliveira era uma mulher que não se impressionava facilmente. Em dez anos de exercício de investigação criminal, era de duvidar que não aguentasse qualquer coisa. Contudo, aquela fotografia do interior da mala, fê-la pensar. Havia alguém importante para a rapariga desconhecida que fora assassinada brutalmente. Importar-se-ia alguém com o seu cruel assassinato? Pelo menos, pensou Lídia, “a rapariga não se tornará num vulto esquecido, enterrado friamente.”
- Ok muito bem, bom trabalho. Contactem-me depois da autópsia. Mantenham-me informado. Dr. Rodrigues, Dra. Oliveira. – limitou-se a concluir num tom monocórdico, o homem de barriga avantajada e enormes sobrancelhas, enquanto se afastava, caminhando com confiança para junto dos agentes policiais que interrogavam uma das pessoas que encontrara o corpo.
- Bem, temos trabalho a fazer, Rodrigues. E a ver se te acalmas um bocadinho! A investigação é um torneio intelectual. Tens que trabalhar muito. - aconselhou Lídia. Achava piada à inocência do Dr. Rodrigues, recém-licenciado em Ciências Forenses, que se demonstrara entusiasmadíssimo com esta investigação, desde que receberam a chamada para se deslocarem ao local. "É mais que natural", pensou Lídia. Perdida nos seus pensamentos, foi um violento puxão que a tirou do transe. Soltou um grito abafado. Olhou para trás e apercebeu-se que era uma das pessoas que falava anteriormente com os policiais. Uma mulher de aparência oriental, baixa, sem ultrapassar os 25 anos com certeza.
- Desculpe se lhe assustei. Podemos falar a sós? – perguntou com a voz trémula a mulher de estatura baixa. O seu sotaque denunciava a incerteza de Lídia.
- Claro - respondeu, ofegante, recuperando gradualmente do susto. Ambas deslocaram-se alguns metros, afastando-se da confusão. Quando finalmente pararam, Lídia olhou para a mulher, esperando que ela dissesse o quer que tivesse para lhe dizer. Parecia que hesitava. Era possível para Lídia respirar o seu nervoso ar. A mulher encontrava-se nervosa, ansiosa e emocionada.
- Sim...? - Lídia estava impaciente e cansada. Tinha sido uma longa noite e a pessoa à sua frente simplesmente não articulava qualquer palavra.
- Desculpe. Bem, o que quero dizer é o seguinte... Penso saber quem é a rapariga. -
Uma lágrima começou a escorrer-lhe pela cara. Como verdadeiro sentimento intenso e sofredor, a pesada lágrima caiu ao chão. Lídia estava espantada, perplexa pelo que sucedia, ao deparar-se com aquela tristeza descabida.